domingo, 25 de abril de 2010

Do outro lado do muro existe uma alma

Refletir e observar o mundo é muitas vezes muito mais doído do que apenas viver. A sensibilidade para a vida, embora seja de grande valia para a humanidade, pois sempre deixará legados, acaba se tornando um impedimento para uma vida intensa e livre.

"Quando eu me comunico com criança é fácil porque sou muito maternal. Quando me comunico com adulto, na verdade estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma, daí é difícil... O adulto é triste e solitário. A criança tem a fantasia muito solta."
(Clarice Lispector)


Clarice Lispector me faz refletir e descobrir o valor da arte e ao mesmo tempo a dor de ser observador e introspectivo diante de um mundo tão complexo e algumas vezes tão desumano.

Esse vídeo é para louvar a arte! Não fosse o sofrimento da alma, não haveria litaratura, nem músicas, nem pinturas...

Viva a dor de alma!!!




sábado, 24 de abril de 2010

Machado Assis - Crônica


Ontem, até às pontas de trabalho, estivemos refletindo (eu e mais duas colegas de profissão) sobre o que é o surto psicótico na atualidade. Como intervir na crise? Ou melhor, o que é a crise? O que nos tira do prumo e nos coloca exatamente no ponto de corte daquilo que é normalidade e o que é patológico? Estamos sempre correndo, trabalhando incansavelmente, consumindo desenfreadamente e nos relacionando superficialmente com os nossos próximos. Só para refletir, e procurarmos nos localizar nesse emaranhado do mundo contemporâneo, retomo aqui a crônica de Machado de Assis... Detalhe: escrita no ano de 1896!


Fuga do hospício


Por Machado de Assis


A fuga de doidos do hospício é mais grave do que pode parecer à primeira vista. Não me envergonho de confessar que aprendi algo com ela, assim como que pedi uma das escoras da minha alma. Este resto de frase é obscuro, mas eu não estou agora para emendar frases nem palavras. O que for saindo saiu, e tanto melhor se entrar na cabeça do leitor.


Ou confiança nas leis, ou confiança nos homens, era convicção minha de que se podia viver tranquilo fora do Hospício dos alienados. No Bond, na sala, na rua, onde quer que se me deparasse pessoa disposta a dizer histórias extravagantes e opiniões extraordinárias, era meu costume ouvi-la quieto. Uma ou outra vez sucedia-me arregalar os olhos involuntariamente, e o interlocutor, supondo que era admiração, arregalava também os seus, e aumentava o concerto do discurso. Nunca me passou pela cabeça que fosse um demente. Todas as histórias são possíveis, todas as opiniões respeitáveis. Quando o interlocutor, para melhor incutir uma ideia ou um fato, me apertava muito o braço ou me puxava com força pela gola, longe de atribuir o gesto a simples loucura transitória, acreditava que era um modo particular de orar ou expor. O mais que fazia, era persuadir-me depressa dos fatos e das opiniões, não só por ter os braços mui sensíveis, como porque não é com dois vinténs que um homem se veste neste tempo.


Assim vivia, e não vivia mal. A prova de que andava certo, é que não me sucedia o menor desastre, salvo a perda da paciência; mas a paciência elabora-se com facilidade; - perde-se de manhã, já de noite se pode sair com dose nova. O mais corria naturalmente. Agora, porém, que fugiram doidos do hospício e que outros tentaram fazê-lo (e sabe Deus se a esta hora já o terão conseguido), perdi aquela antiga confiança que me fazia ouvir tranquilamente discursos e notícias. É o que acima chamei uma das escoras da minha alma. Caiu por terra o forte apoio. Uma vez que se foge do hospício dos alienados (e não acuso por isso a administração) onde acharei método para distinguir um louco de um homem de juízo? De ora avante, quando alguém vier dizer-me as coisas mais simples do mundo, ainda que não me arranque os botões, fico incerto se é pessoa que se governa, ou se apenas está num dqueles intervalos lúcidos, que permitem ligar as pontas da demência às da razão. Não posso deixar de desconfiar de todos.


A própria pessoa – ou para dar mais claro exemplo, - o próprio leitor deve desconfiar de si. Certo que o tenho em boa conta, sei que é ilustrado, benévolo e paciente, mas depois dos sucessos desta semana, que lhe afirma que não saiu ontem do hospício? A consciência de lá não haver entrado não prova nada; menos ainda de ter vivido desde muitos anos, com sua mulher e seus filhos, como diz Lulu Sênior*. É sabido que a demência dá ao enfermo a visão de que um estado estranho e contrário à realidade. Que saiu esta madrugada de um baile? Mas os outros convidados, os próprios noivos que saberão de si? Podem ser seus companheiros da Praia Vermelha. Este é o meu terror. O juízo passou a ser uma probabilidade, uma eventualidade, uma hipótese.


Isto, quanto à segunda parte da minha confissão. Quanto à primeira, o que aprendi com a fuga dos infelizes do hospício, é ainda mais grave que a outra. O cálculo, o raciocínio, a arte com que procederam os conspiradores da fuga, foram de tal ordem, que diminuiu em grande parte a vantagem de ter juízo. O ajuste foi perfeito. A manha de dar pontapés nas portas para abafar o rumor que fazia Serrão arrombando a janela do seu cubículo, é uma obra prima; não apresenta só a combinação de ações para o fim comum, revela a consciência de que, estando ali por doidos, os guardas os deixariam bater à vontade, e a obra da fuga iria ao cabo, sem a menor suspeita. Francamente, tenho lido, ouvido e suportado coisas muito menos lúcidas.


Outro episódio interessante foi a insistência de Serrão em ser submetido ao tribunal do júri, provando assim tal amor da absolvição e conequente liberdade que faz entrar em dúvida se se trata de um doido ou de um simples réu. Não repito o mais, que está no domínio público e terá produzido sensações iguais às minhas. Deixo vacilante a alma do leitor. Homens tais não parecem artífices de primeira qualidade, espíritos capazes de levar a cabo as questões mais complicadas deste mundo?


Não quero tocar no caso de Paradeda Júnior, que lá vai mar em fora, por achá-lo tardio. Meio século antes, era um bom assunto de poema romântico. Quando, alto mar, o infeliz revelasse, por impulsão repentina, o seu verdadeiro estado mental, a cena seria terrível, e a inspiração germânica, mais que qualquer outra, acharia aí uma bela página. O poema devia chamar-se “Der narrische Schiff” (A nau dos insensatos). Descrição do mar, do navio do céu; a bordo, alegria e confiança. Uma noite, estando a lua em todo o esplendor, um dos passageiros contava a batalha de Leipzing ou recitava uns versos de Uhland (poeta alemão). De repente, um salto, um grito, tumulto, sangue: o resto seria o que Deus inspirasse ao poeta. Mas, repito, o assunto é tardio.


De resto, toda esta semana foi de sangue, - ou por política, ou por desastre, ou por desforço pessoal. O acaso luta com o homem para fazer sangrar a gente pacata e temente a Deus. No caso de Santa Teresa, o cocheiro evadiu-se e começou o inquérito. Como os feridos não pedem indenização à companhia, tudo irá pelo melhor no melhor dos mundos possíveis. No caso da Copacabana, deu-se a mesma fuga, com a diferença que o autor do crime não é o cocheiro; mas a fuga não é privilégio do ofício, e, demais, o criminoso já está preso. Em Manhuaçu continua a chover sangue, tanto que marchou para lá um batalhão daqui. O comendador Ferreira Barbosa (a esta hora assassinado) em carta que escreveu ao diretor da Gazeta e foi ontem publicada, conta minunciosamente o estado daquelas paragens. Os combates têm sido medonhos. Chegou a haver barricadas. Um anônimo declarou pelo Jornal do Comércio que, se a comarca de S. Francisco tornar à antiga província de Pernambuco, segundo propôs o Sr. Senador João Barbalho, não irá sem sangue. Sangue não tarda a escorrer do jovem Estado (peruano) do Loreto...


Enxuguemos a alma. Ouçamos, em vez de gemidos, notas de música. Um grupo de homens de boa vontade vai dar-nos música velha e nova, em concertos populares, a preço cômodo. Venham eles, venham continuar a obra do Clube Beethoven, que foi por tanto tempo o centro das harmonias clássicas e modernas. Tinha de acabar, acabou. Os Concertos populares também acabarão um dia, mas será tarde, muito tarde, se considerarmos a resolução dos fundadores, e mais a necessidade que há de arrancar a alma ao tumulto vulgar para a região serena e divina...Um abraço ao Dr. Luís de Castro.


Pela minha parte, proponho que, nos dias de concerto, a Companhia do Jardim Botânico, excepcionalmente, meta dez pessoas por banco nos bonds elétricos, em vez das cinco atuais. Creio que não haverá representação à Prefeitura, pois todos nós amamos a música; mas dado que haja, o mais que pode suceder, é que a prefeitura mande reduzir a lotação a quatro pessoas do contrato; em tal hipótese, a companhia pedirá como agora, segundo acabo de ler, que a Prefeitura reconsidere o despacho, - e as dez pessoas continuarão, como estão continuando as cinco. Há sempre erro em cumprir e requerer. Quanto ao método, é muito melhor que tudo se passe assim, no silêncio do gabinete, que tumultuosamente na rua: Não pode! Não pode!


In. Fuga do Hospício. Machado de Assis. São Paulo: Ática, 2003, p.13-17

Imagem retirada da Internet: Doido de pedra

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Pela liberdade e autonomia


Hoje estive pensando de que forma poderíamos trabalhar alguns temas aqui neste espaço, como por exemplo, o quanto estamos em constante luta contra a nossa própria condição de sermos sócio-historicamente constituídos.

Tendemos a nos reconhecer como sujeitos livres e autônomos, no entanto essa concepção foge ao escopo do que seria a verdadeira liberdade e autonomia daqueles que se constituem pela sua existência social e histórica: nós os humanos.

A nós, como seres sociais, não nos confere mais do que a capacidade de construir a nossa história ou a história de nossa sociedade a partir das interações sociais que compõem o nosso existir. No entanto, nos enganamos ou muitas vezes nos colocamos como vítimas de um processo que foi e está sendo construído por nós mesmos: desigualdades sociais, má distribuição de renda, violência etc.

Trago aqui apenas uma reflexão a todos nós, os humanos: como temos participado da construção de nossa sociedade? Qual é o sentido de nosso conhecimento, de nossos estudos e de nosso trabalho? Que liberdade e autonomia estamos exercendo: aquela de individualização do ser e de busca de uma autonomia que nos garanta o nosso lugar ao sol? Ou aquela de individuação do ser (retomando aqui as reflexões de Adorno), cuja liberdade e autonomia estão atreladas a uma universalidade que extrapola o indivíduo e que se constitui como autonomia de pensamento e não mera reprodução da capacidade de se cuidar e/ou se manter nessa sociedade tão competitiva.

Com essas reflexões podemos tentar compreender qual é o curso de nossa existência, se nos deixamos levar pelo correr natural do rio, ou se utilizamos os remos como ferramenta de superação de uma situação imposta.

Cabe aqui refletir sobre as próprias políticas públicas: o que temos feito nesse sentido? Como temos avaliado algumas políticas de inclusão como, por exemplo, as diretrizes do SINASE (que traz orientações a respeito do sistema socioeducativo aos adolescentes em conflito com a lei) ou mesmo a politica nacional de saúde mental (que regulamenta a atenção à saúde das pessoas em sofrimento psíquico, prevendo a liberdade e o direito de participação na comunidade).

Sei que o debate é amplo e que há muita divergência entre os diversos segmentos sociais, sei também que não conseguiremos consenso, mas proponho aqui apenas uma reflexão: o que é a liberdade para nós? Que liberdade estamos retirando quando colocamo atrás das grades o adolescente autores de ato infracional e os loucos, trancafiados em manicômios?

Não tenho a pretensão de encontrar respostas para tais questionamentos, e muito menos de defender uma idéia pronta, mas apenas de criar em nós uma inquietação e desestabilização, pois é com a instabilidade que construímos mudanças. É a partir da instabilidade do curso do rio que poderemos retomar os remos de nossa história. Ninguém muda aquilo que está bom ou que não incomoda. Já viu o ditado: em time que está ganhando não se mexe? Pois então, ele não é mais do que a própria acomodação e reprodução do homem às condições sociais impostas.

Para terminar as reflexões de hoje, ou melhor, para continuarmos refletindo, trago aqui a música de Chico Buarque, pois embora não estejamos mais em plena ditadura, na maioria das vezes continuamos calados:


Cálice

Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga?
Tragar a dor engolir a labuta?
Mesma calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira tanta força bruta
Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, pai, abrir a porta
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Pai, afasta de mim este cálice
Pai, afasta de mim este cálice
De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo não seja pequeno
Nem seja a vida um fato consumado
Quero inventar o meu próprio pecado
Quero morrer do meu próprio veneno
Quero perder de vez tua cabeça
Minha cabeça perder teu juízo
Quero cheirar fumaça de óleo disel
Me embriagar até que alguém me esqueça.


Imagem retirada da Internet: calado

sábado, 17 de abril de 2010

PRA COMEÇAR


Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães...o sertão está em toda parte.


João Guimarães Rosa
(Grande Sertão: Veredas)



O que mais me encanta na vida é poder compartilhar os aprendizados. Este Blog surge como espaço de reflexão e questionamentos a respeito daquilo que denominamos HUMANO. São reflexões a partir das minhas pesquisas no campo da Psicologia Social, mais precisamente na minha pesquisa de Doutorado em Psicologia (em andamento), a qual nos remete às políticas públicas e à dialética de inclusão/exclusão social.

Pretendo, aqui, fomentar o diálogo e o aprendizado de forma espontânea, pensando no SER como uma gama de possibilidades, que, na própria condição HUMANA, às vezes, vê a sua vontade de realização lhe ser retirada ou transformada em uma vontade coletiva e não ontológica. Daí o título deste Blog (tomado empréstimo do escritor goiano: Bento Fleury) e a evocação da grande obra de Guimarães Rosa.

A partir de agora, sejam todos bem vindos! Façam deste Beco um lugar por onde ecoem os gritos de todos nós.

Rosana Carneiro Tavares


Imagem retirada da Internet: Beco